O lado escuro da idolatria no Rock

raul seixas

Sou nascido em uma época em que grandes clássicos foram forjados nas montanhas nobres da música. Do Rock, ouvi minhas primeiras grandes referências musicais logo nos primeiros anos de infância, com o saudoso Raúl trazendo seus temas reflexivos, os titãs despertando pela primeira vez meu sentimento de crítica do capitalismo selvagem e, principalmente, o Pink Floyd trazendo aquelas melodias que, para mim, nem precisam de letras. As sensações e sentimentos que sua música despertavam eram tão grandes que era possível imaginar sobre o que eles cantavam. Mas, como há várias faces do prisma, há um lado escuro da lua que grandes lendas não revelam, mas que prejudicam a nossa visão a respeito do próprio Rock.

Por: Fernando Moraes, vocalista e guitarrista da Rota Ventura

Em tempo, o título é apenas um desabafo, continuo curtindo muito Raúl, sobretudo sua fase mais anarquista.

Como qualquer fã de Rock, via-me no futuro empunhando uma guitarra, como se fosse um gladiador dos tempos modernos, um herói cumprindo seu papel de levar emoção, conteúdo inteligente e quebrar regras sociais por meio das letras e atitude do Rock. Mas o tempo foi passando e antigos ídolos foram substituídos por novos e a influência adolescente – que época terrível – fez com que a idolatria fosse levada a tal ponto que fizeram surgir diversos preconceitos. Queen já não era bom, porque era considerado um subgrupo inferior pela turma que andava; música brasileira não prestava, porque tudo que era bom só vinha dos países nórdicos ou da Inglaterra; bandas nacionais só valiam alguma coisa se cantassem em inglês, tudo o que é velho é bom, o novo não presta (a não ser que este novo seja carimbado e aprovado por aquele grupo do qual a gente fazia parte).

Por muito tempo ouvi Chico Buarque e Belchior escondido, sem que amigos percebessem, com medo de ser excluído. Até que um dia, em um churrasco, alguém falou de música de um destes artistas dos quais gostava e começamos a debater a respeito. Foi então que percebi que a maioria deles também gostava de ouvir o que eu escondia, e que aquele sentimento tosco de adolescente só serviu para limitar meu desenvolvimento dentro da música.

Foram anos preso a estigmas de que eu tinha de ouvir certas coisas e não outras, porque tinha de me comportar de acordo com um padrão dogmático sem sentido – algo do tipo como acontece com algumas igrejas.

Mas lembro uma entrevista que li de um dos grandes ídolos do Rock, que nos deixou recentemente e a quem rendo aqui minhas homenagens. Lemmy Kilmster, ao ser perguntado sobre quem eram suas referências que “uma das suas bandas preferidas era o ABBA”. Daí, não quis mais ser “true” hahaha.

Contei esta história para refletir sobre algo que acontece muito com a juventude, sobretudo no que diz respeito ao Rock e é por isso que ele está agonizando. Com toda idolatria ao passado, aos artistas lendários, não sobra espaço para que outras histórias sejam contadas e cantadas. Mesmo antes de se ouvir, tudo é ruim, uma droga, já não se faz nada como antigamente (assistam à série “Cosmos”, entre outras do gênero, e entenderá que nada é como era e nunca será novamente. Aqueles tempos nunca mais irão voltar. Acorda pra vida!).

Pois, invariavelmente, no evento que tocamos, em que queremos apresentar nosso som, antes mesmo de tocarmos alguns acordes de nosso som, alguém já pede: toca Creedence, Raul, Iron Maiden, Legião ou qualquer banda que não seja a nossa.

Em um show que fui recentemente de uma banda da qual gosto muito, fiz questão de pedir para que tocasse uma música autoral da qual eu gostava muito. O vocalista olhou para mim e comentou: nossa, cara, este foi o melhor pedido que fizeram nesta noite. Só quem compõe e esteve em cima de um palco sabe como é esta sensação. Mas, como no bar, ninguém estava pouco se lixando para isso, só tocaram covers dos grandes ídolos… para animar a galera. E adeus a mais uma oportunidade de mostrar o trabalho, de imensa qualidade, diga-se.

Assim sendo, deixo aqui um recado para nossos jovens, sobretudo aqueles que sonham em viver de música e se dedicam na aprendizagem de um instrumento: desprendam-se das amarras do preconceito e ouçam o que puderem, o que gostarem. Vocês irão descobrir coisas interessantíssimas que não descobririam se levarem em conta quando um zé ruela qualquer quiser te convencer sobre o que presta e o que não presta na música.

Olha o merchã

Para quem ainda não conhece, convido para ouvir o som da Rota Ventura. Pode baixar, fazer o que quiser, é tudo liberado!

http://www.soundcloud.com/rotaventura

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s